RAMUNGONSA
(Julgamento do 1o. Judas Longe de Época da Madre Deus)
Wellington Reis
São Luís-MA/1999
Já dizia Arquimedes
"Que brincar é
condição
Fundamental pra ser
levado
A sério". E prestem
atenção
Nesta história que começa
Quando alguém aqui
tropeça
E ainda se acha com razão
Não preciso nem dizer
Nem tampouco aqui contar
Pois a cidade inteira
sabe
Mesmo assim é bom lembrar
Principalmente às
crianças
Nossa única esperança
De zelar pelo lugar
O lugar é a Madre Deus
Nossa vila abençoada
Dentre todas a primeira
A ser lembrada e
procurada
Quando o caso é criação
Pura arte e diversão
É aqui a pátria amada
Mas.. tudo tem um preço
Que se paga pelo amor
E por ser filho dessa Mãe
De Deus, há muita dor
Foi numa briga pelo céu
Que Caim matou Abel
E foi criado o desamor
Mas, povo aqui presente
Quero mesmo é falar
De um cabra invejoso
Logo mais vou apresentar
O motivo desta história
E com toda dedicatória
Deste meu versejar
Dizendo-se poeta,
Até quero acreditar
Mas, nesta ilha quem não
é?!
É tão fácil o achar:
Traz no topete, bem na
crista
Escrito: mal jornalista
Que se emprenha no
escutar
Mas quem vai adivinhar
Atenção, muita atenção!
O nome do invejoso?
Quem souber levante a mão
Ele tem cara de onça
Jeitão de geringonça
E cabeça de camarão
Muito bem! Exatamente.
Todo mundo acertoul
Ramungonsa é o nome dele
Nosso Judas, seu dotô
Aqui e agora, em carne em
osso
Parece até o cão tinhoso
Esse bazofiador.
Está aqui pra ser julgado
Não como um criminoso
Nem tampouco traidor
Mas por ser tão mentiroso
Falador e despeitado
Como todo pau-mandado
A mando de outro invejoso
Toda a corte cá presente
Representa a Madre Deus
Sua cultura e sua gente
Somos todos filhos seus
Defendendo "pari
passu"
Toda a área cá do paço
Independente do plebeu
Vale agora, é bom lembrar
Alguns dos nossos
combatentes.
Que por obra do divino
Já estão de cá ausentes
Mas que são nossa memória
Em defesa desta história
Por isso estão aqui
presentes
De lembrança trago agora,
Nosso Zé Igarapé..
E quem não lembra de
Tabaco.
E o nosso bravo Barnabé?
Quem foram Sapo e Sapinho
E o grande malandro
Dedinho.
Que traziam o samba no
pé?
Cabocão, grande Cesinha
Adonde andas meu irmão
Tens visto Carlos Prio
E Tinho, meu xarazão?!
Ah! Dizem que Luciel
Agora é anjo aí, no céu?!
Quanta saudade amigão.
Tem mais, tem muito mais
Mestre Orfila e Luís de
França
Esses grandes baluartes
Escutem, que não cansa
Falar de Malandreca
A nossa "levada à
breca"
Que tinha alma de criança
Vejam Ribamar Buchudo
Brincando com Caveirinha:
- Olha o boi.. caiu o
boi!
Zé Baú torceu a espinha
Minha nossa, é o Vavá
Cantando pra oxalá
Nas asas duma andorinha
Fica quieto Ramungonsa
Que isso não é bravata
Não me faças esquecer
De Nataniel Barata
Barata, também, Alfredo
Este de fé e credo
Dos Barata eram a nata.
Quem foi "Boca de
Édi
Chico Porco e Manoel
Pinto?
Na sede do Boi, um está,.
Não na sede do Quinto.
Foi-se também seu
Louzeiro
O grande quitandeiro
De repente, se não minto
Mas abençoe Mãe Bibica
Toda a nossa geração
E perdoe os inimigos:
Que detestam a nação
Divina Madre divina
Do confete e serpentina
E das noites de São João.
Hoje são 12 de outubro
Dia do poeta maior
Cristóvão Colombo da
Silva
Dos melhores, o melhor
Sambista-repentista
Esse grande nobre artista
Nosso compositor mor
Tudo isto e mais ainda
É pra mostrar ao falador
O quanto vale uma saudade
E a defesa com ardor
De quando alguém com a
suja boca
Diz bobagens qual uma
louca
Pra atingir a nossa flor
Pra mostrar a nossa
bondade
E até mesmo é um feito
Da nossa Constituição
Quero chamar logo o
sujeito
O príncipe da cocada
preta
Esse poeta maxambeta
Pra exercer o seu direito
Mas tenho um problema
Muito grave a confessar
Não suporto ver o sucesso
De artistas deste lugar
E olha que eu me esforço
Criando sempre algun
troço
Pra poder me comparar
Tenho tido até vitórias
Que me dão algum alento
Chego a ser reconhecido
Através de algum invento.
Mas o povo é tão cruel
E logo passa um pincel
Com tinta ao sabor do
vento
O povo é mesmo a Madre
Deus
Já cheguei até pensar
Seriamente há várias luas
Em praqui me transportar
Não definitivamente
Mas pra aprender com esta
gente
Como se faz para criar
Tantos grupos de sucesso
Assim da noite para o dia
Se é Carnaval, se é São
João
No Maranhão logo è mania.
Até projetos como o Viva
Inspiração de uma diva.
Por aqui se inicia
Eu não queria ter inveja.
Do trabalho desta gente
Mas me dói tanto no peito
Ver vocês sempre na
frente
De qualquer
acontecimento.
E vem daí o patrulhamento
Que é normal do
incompetente
Nada mais tendo a dizer
Quero aqui pedir
desculpas
As pessoas que eu ofendi
Perdão às minhas culpas
Egrégia corte cultural
Deste paço imperial
Madre Deus, mea-culpa..
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TRIBUNO
Se tem alguém que ainda
queiral
Defender o cascateiro
Venha aqui. Tem 03
segundos
Pra se tornar o seu
herdeiro
E ser o judas do ano 2000
Da Madre Deus, São Luís,
Brasili
Pois quem é o
aventureiro?!
Como aqui ninguém é
trouxa
Pra nós agora è vital
Convocar as entidades
Pra compor o tribunal
Eu, como tribuniclo
Quero agora dar início
À convocação geral
O TRIBUNAL DO JURI DO 1°
JUDAS LONGE
DE ÉPOCA DA MADRE DEUS
SERÁ ASSIM
CONSTITUÍDO POR GRUPOS E
BRINCA-
DEIRAS QUE DIA A DIA
ENGRANDECEM
CULTURALMENTE ESTA
COMUNIDADE.
Turma do Quinto
Tote Bazoca
Bicho-Terra
Os Feras
Piaçaba
Boi Encanto da liha
Bumba-Meu-Boi da Madre
Deus
Vagabundos do Jegue
Regional 310
Fuzileiros da Fuzarca
Principe de Roma
Cobras nas Estrelas
Grupo Sambista Caroçudo
Boizinho Barrica
Sindicato do Samba
CARALHO DE ASA
Amarrem esse imundo
No alto daquele poste
Pra que todo mundo atire
Uma pedra no seu rabioste
O amarrem muito bem
Sem pão e água também
Até o dia de Pentecoste
SINDICATO DO SAMBA
Não não.. e não.
Nada disto companheiro
Vamos deixar esse poeta
Com a bunda num
formigueiro
Quando estiver bem vermelhinha
Cai muito bem umas
palmadinhas
Depois o jogamos no
atoleiro.
GRUPO PIAÇABA
Muita calma, meus amigos
Levem em consideração
Que ele aqui pediu
desculpas
Chegou até pedir perdão
Por isso tenho uma
proposta
Pra que esse cara de
bosta
Esfregue e lave o nosso
chão
PRÍNCIPE DE ROMA
Somos contra essas coisas
Nada de humilhação
Ramungonsa não é culpado
Dessa sua contestação
Quem é bom já nasce feito
Este é o nosso defeito.
Motivo da indignação
REGIONAL 310
Concordamos com a
assertiva
Do nobre "Príncipe
de Roma"
E vale assim desta forma
Gastar o nosso idioma
Não vamos dar uma de
Herodes.
Mandemos embora esse
jagodes
Cuidar dos papilomas
VAGABUNDOS DO JEGUE
Se o deixarmos ir embora
Sem nenhuma correção.
Pra que tanta trabalheira
Pra julgar o bobalhão?
Comigo malandro não se
cria
É a minha filosofia
Eu condeno o espertalhão
BOIZINHO BARRICA
"Gonsa" muito
me atacou
Por despeito ou inveja
Na mídia da capital
Ele que meça e veja
Que eu não sou um simples
lume
Como um qualquer "caga-lume"
Eu sou internacional
BICHO-TERRA
Somos da mesma família
Lemos na mesma cartilha
Mas não posso concordar
Com o Boizinho maravilha
Absolvo esse infeliz
Que nunca sabe o que diz
Pelos 4 cantos da ilha
TOTE BAZOCA
É isso aí Bicho-Terra
Tó contigo e não abro.
Apesar de não gostar
Das ações desse diabro
Uma sentença complacente
Bem que cabe ao indecente
Pra compensar o
descalabro
OS FERAS
Ele nunca me fez nada
Mesmo assim não gosto
dele
Se falou da Madre Deus
Por mim metam o pau nele
Ou que para sempre se
cale
Pra mim é o que vale
Seja ele ou seja aquele
FUZILEIROS DA FUZARCA
Basta olhar para ele
É um ser insignificante
E hoje é dia da criança
Nada mais tão aviltante
Ele errou, já confessou
Deixem-no só com a sua
dor
Queremos paz daqui em diante
COBRA NAS ESTRELAS
Respeitamos os Fuzileiros
Mas não vamos concordar
Aqui já temos uma corda
Que é prumode enforcar
Esse infame mentiroso
Poeta tedioso
Que só sabe arrotar
BOI ENCANTO DA ILHA
Concordamos com os Cobras
Que devemos condenar
Mas enforcar já não seria
A forma de estancar
A sanha desse maroto
Que se pudesse, num
arroto
Arrasaria esse lugar
BOI DA MADRE DEUS
Violência gera violência
Não vamos nos precipitar
Se Cristóvão aqui
estivesse
Logo iria improvisar
Versos de paz e alegria:
E sei, não concordaria
Com esses modos de acusar
TURMA DO QUINTO
Talvez tenhas razão
Meu nobre touro valente
Mas cabe cá com justiça
Defender a nossa gente
Pois ninguém tem o
direito.
De nos faltar com o
respeito
E ficarmos indiferente
Mas vou ficar no muro
Sentado e escanchado.
Abstenho-me de votar
Não estou acovardado
Deixo ao povo que é
Quinto
Responder se mete o cinto
Ou absorve esse coitado
TRIBUNO
Nada restando a fazer
Aqui neste tribunal
Novamente quero ouvir
Cada voto nominal
E só dizer se è inocente
Ou culpado esse demente
Para o veredito final.
(FEITA A CONTAGEM)
Ora, ora !!!
Meio a meio é empate
Temos que desempatar
De quern é o voto
especial
Pra nos representar?
Proponho um bedelho
-Ou o próprio Conselho
Pra se nos fazer
representar
CRIANÇA
Eh! Moço eu quero falar!
Se bedelho é criança
Eu também quero falar
Afinal, hoje é o meu dia
Não estou aqui só pra
brincar
Se Jesus Cristo perdoou
As custas de muita dor
Vamos, a ele, imitar
Por isso peço ao Conselho
Cultural da nossa gente
Que perdoe Ramungonsa
Ele deve estar doente
Mandem logo ele embora
Logo, logo, sem demora
Esse Judas diferente
TRIBUNO
E agora para encerrar
Este egrégio tribunal
Chamo o nosso
representante
O Conselho Cultural
O minerva escolhido.
De todos aqui reunidos
Dara esse instante final.
CONSELHO CULTURAL
O Conselho Cultural
Comunitário da Madre Deus
Pela honra e em defesa
De todos os filhos seus
Neste caso especialmente
Jurisprudentemente
Vem a mandado de Deus.
- ELE disse:
"Vinde a mim as
criançinhas,
Delas será o reino dos
céus"
Ao ouvir essa criança
Tão doce como fidéus
Da esperança não desgarro
Porém, muito mais me
agaro
Com a força dos arpéus
"Perdoe os seus
inimigos,
Nada os aborrecem
tanto"
Já dizia Oscar Wilde
Esta frase. Um encanto!
Assim, nesta ocasião
Antes da minha decisão
Quero, aqui, portanto
Dizer ao sacripanta
Esqueça esta comunidade
Esqueça nossos artistas
Culturais da humanidade
Tudo por aqui, esqueça
Aproveite e enriqueça
A sua mentalidade.
Posto que aqui quisesse
Condenar esse tratante
Diante dessas crianças
Eu ficaria hesitante
Logo, absolvo, mas
expulso
Esse poeta amigo urso
Para o inferno em diante.

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